Nossos Vieses – Parte 02

Alessandra Ramos

25 de agosto de 2021

Blog do Grupo Bridge

Desenvolvimento humano, transformação cultural e inovação.
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No artigo anterior descobrimos (ou relembramos) como os vieses inconscientes são formados, conseguimos compreender como se estruturam e como entram em ação de forma tão rápida que geram uma reação “automática” de nossa parte, fazendo-nos sequer perceber que estamos agindo pautados por eles.

Vimos também que tais respostas “prontas” nos ajudam sobremaneira a economizar energia para investir em coisas novas, novos estímulos ou aprendizados. Porém, apesar de facilitar nossa vida prática, nossa rotina e agilizar nosso aprendizado, pode ser prejudicial às nossas relações e, consequentemente, a forma como vivemos em sociedade.

Neste artigo te convido a refletir um pouco mais sobre tais vieses inconscientes e como eles podem impactar nossa liderança e gestão de pessoas.

Para avançarmos sobre esse tema, é importante resgatarmos o aforismo “cada ser é único”. Isso porque, segundo Mlodinow, “o inconsciente é responsável pelos pensamentos analíticos, pelas percepções e pela maneira que construímos nossa realidade”. Logo… Nosso mundo interior é único, diferente do mundo das outras pessoas, nossas verdades não são (e nunca serão) absolutas, posto que o que vemos, falamos e acreditamos depende do que vivemos e de onde vivemos.

Nosso mundo pode habitar harmonicamente o mesmo “sistema” de outros mundos, considerados nossos “similares”, de tal forma que podemos até nos confundir neles, ou pode literalmente colidir com outros mundos, completamente estranhos a nós. E quanto mais distante do nosso círculo de convivência, ambientes de acesso e costumes culturais, sociais e religiosos, mais forte tende a ser essa colisão.

Mas, como percebemos se está havendo colisão ou não? Conflito!

O diferente nos aponta o choque de realidades, uma vez que o que nos soa estranho, errado, diferente e difícil, tendemos a evitar. Afinal, não é só nossas células que tendem à homeostase (rs).

Quem nunca preferiu ignorar algo que foi dito ou levantar a voz para se impor ao invés de escutar e ponderar o que está ouvindo (por mais errado que lhe pareça) que atire a primeira pedra!

Lembra da economia de energia? Ao invés de confrontarmos algo com um “e se?” e termos o trabalho interno de reordenar conhecimentos já dados como “certos”, como “respostas válidas”, nós agimos de forma instintiva.

E atacar ou fugir continuam sendo instintivos, mas o que antes era primitivamente físico, há muito passou a ser conceitual também.

Uma vez que você já entendeu a ideia e relembrou um pouquinho da nossa primeira parte, responda “você costuma ler um jornal ou mesmo ouvir um podcast contrários ao que você gosta/acredita toda manhã?

Se você disse não, não há nada de errado contigo. Esta tendência “natural” que temos de nos aproximarmos, apreciarmos e aceitarmos o que é semelhante e evitarmos o que gera estranheza e desconforto é um (grande) um viés inconsciente conhecido como viés de afinidade.

É neste ponto que podemos afirmar o quanto a ciência cognitiva vem nos ajudando a compreender as raízes do preconceito, além de possibilitar estudos para respaldar movimentos para frearmos o avanço da “homogeneização” cultural e econômica.

Tomemos como exemplo as pesquisas desenvolvidas por Andreas Kappes e Tali Sharot que comprovaram que diante de algo que discordamos nosso cérebro não consegue registar a força da opinião da outra pessoa, o que nos dá menos motivos para mudarmos de opinião”. Kappes ainda afirma que “A tendência comportamental de descartar informações discrepantes tem implicações significativas para os indivíduos e para a sociedade, porque pode gerar a polarização e facilitar a manutenção de falsas crenças”

A compreensão dessa tendência intrínseca começou a ser utilizada como munição na luta de grupos minorizados para garantir maior visibilidade e conquista de direitos. Direitos estes que acabamos por restringir ao longo da história muitas vezes sem nem mesmo nos darmos conta, por nossas ações e escolhas já serem consideradas “naturais”. Tais tendências acabam sendo reforçadas graças ao viés da percepção, o mesmo que diz que “mulher dirige mal” mesmo sem ver uma dirigindo assim, justamente por ser uma “verdade” já propagada no imaginário social. Ou você presta atenção nas barbeiragens que os homens fazem enquanto dirigem? Repare no “filtro”…

Quer ver outro filtro interessante? Pense em alguém sendo chefe de família, com um excelente cargo e que exala poder. Agora pense em um profissional brilhante e dedicado. Em alguma dessas situações te veio uma mulher negra, mãe e executiva à mente? Vamos apostar quantos de nós pensamos um homem, entre 30 e 50 anos, branco, de terno impecável e um lindo relógio em pulso?

Agora que já compreendemos o que o danado do nosso cérebro é capaz de fazer com os 95% do nosso trabalho mental inconsciente, podemos falar do quanto isso afeta o meu, o seu, o nosso jeito de liderar e gerir pessoas.

Desde a hora que estamos levantando os requisitos para uma vaga, durante uma avaliação de desempenho, promoção ou até a hora do desligamento, precisamos cuidar desses nossos vieses inconscientes. Será que estamos sendo racionais e tomando decisões pautadas em fatos e resultados tangíveis ou estamos seguindo nosso feeling? O perigo do feeling ou da intuição é, justamente, o fato dele estar carregado dos nossos vieses inconscientes.

Tendo a compreensão desse perigo, essa clareza de como funcionamos e de quão subliminares podem ser os fatores que nos levam às tomadas de decisão, podemos, conscientemente, parar, analisar e refletir sobre o que está diante de nós antes de darmos a palavra final. Pois, se é impossível controlar o inconsciente – uma vez que sequer percebemos quando estamos sendo influenciados por ele – por outro lado é totalmente possível influenciá-lo também. “Podemos mudá-lo. Ele é tão maleável quanto a consciência, ou talvez mais”, conforme afirma o neurologista Ran Hassin.

E como fazemos isso? Ao analisarmos nossos padrões de fala e comportamento, ao analisarmos de forma criteriosa o que está nos levando à uma decisão, e, principalmente, quando praticamos essa reflexão sobre o quanto os estereótipos estão realmente nos influenciando. Esse exercício constante de reflexão é fundamental para a flexibilização dos nossos preconceitos e minimização da influência dos vieses inconscientes. Perguntas como “será que essa frase foi machista?”, “fui tendencioso?”, “estou sendo homofóbico?”, “esse pensamento é racista?” ou ainda “eu parei pra ouvir o que ele falou ou já descartei por não concordar?”, nos levam a uma ampliação do olhar, nos tiram do lugar comum de certeza e nos fazem duvidar. O que é excelente, pois a dúvida nos permite explorar.

Diante do diferente, ao invés de negar e procurar por iguais, podemos questionar se o diferente não pode ser tão bom quanto ou melhor, podemos tomar proveito da força da diversidade e garantir um espaço mais acolhedor e saudável. Um espaço onde os mundos particulares se complementem ao invés de se chocarem e criem galáxias harmônicas ao invés de buracos negros.

Ah, mas como fazer isso? Tá, reflito, questiono, e?

E ouve, e abre espaços de fala e de escuta, e leva em consideração os sentimentos e as angústias de todos. Observa atentamente não o que é comum e padrão, mas o que é ação, o que é esforço investido ao invés de expectativa provável.

Ao fazer isso, liderará através do exemplo, e todos a sua volta perceberão a importância de conhecer antes de julgar, de ouvir antes de falar e de colaborar ao invés de excluir. Afinal, é da natureza humana a necessidade de aceitação, de achar seu “lugar” no mundo.

Precisamos fazer esse exercício até que se torne comum não estranharmos mais o fato de que uma pessoa que pense totalmente diferente de nós também seja uma excelente pessoa, que um transsexual possa ser um excelente estrategista, uma mulher que acabou de se tornar mãe possa também ser tão dedicada a profissão quanto um homem ou mesmo que uma pessoa com deficiência possa ser um exímio profissional.

Além dos vieses citados aqui existem outros como o viés confirmatório, o efeito de grupo ou o efeito auréola, mas todos podem ser minimizados com os exercícios aqui propostos.

Aceitar o desafio de tomar consciência dos nossos vieses é fundamental para que sejamos os melhores líderes que pudermos ser.

E aí? Aceita esse desafio?

ESCRITO POR

Alessandra Ramos

É Analista Sênior do Grupo Bridge, onde desenvolve conteúdos e ações educativas que buscam despertar o ilimitado potencial das pessoas. Se não está aprontando por aqui, certamente está cuidando da família ou bagunçando com as crianças.

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