O sentido do trabalho – uma autópsia necessária

Alessandra Ramos

5 de maio de 2020

Nos últimos dias pudemos presenciar empresas aumentando suas vendas e consequente faturamento, outras reduzindo drasticamente suas funções e folhas de pagamento, sem esquecer das que estão pensando em quando e como “jogar a toalha”…

Em qualquer um desses cenários temos um elemento comum: o trabalho

E como a data de hoje, ao contrário dos esforços dos sucessivos governos, é de luta e reflexão – e não de comemoração – eu te convido a realizar uma autópsia honesta do seu próprio trabalho.

Calma, não estou partindo do pressuposto que nosso trabalho morreu, apesar de alguns terem sua extinção acelerada com essa crise… Refiro-me aqui ao significado originário da palavra: “exame de si mesmo” (“Autos”: própria; “opsis”: olhar).

Agora que vamos partir do mesmo pressuposto, dissecaremos o trabalho em duas estruturas possíveis: Condições extremamente atuais de trabalho que consegui pensar, as quais separarei por letras; e as consequências possíveis em sua vida, incluindo reações psicológicas/ sociais, elencadas por números. Desta forma, escolhendo letras e números conforme sua realidade atual, ao final, você terá uma autópsia do seu trabalho, pertinente e necessária para refletir sobre os próximos passos tanto durante quanto após esse período de “crise”.

Note que as consequências têm numeração contínua, pois elas servem para qualquer condição, ou seja, não dependem das letras para serem escolhidas. Então, mesmo que a condição A não se aplique a sua realidade, você pode estar vivendo a consequência 3, por exemplo. Então anote-a!

Acredito que esse exercício facilitará sua análise sobre qual sentido você dará para o seu trabalho a partir de agora. Entendeu?

Pegou a caneta e o papel? (pega porque vai precisar!)

Preparado/a? Valendo:

  1. A carga de tempo e/ou esforço de trabalho está maior que antes;
    1. Seu tempo pessoal se restringiu e o trabalho está afetando outros papéis/ esferas da sua vida;
    2. Seu nível de cansaço/estresse está alto, e ao mesmo tempo não há ninguém com quem falar sobre isso, não há suporte aparente ou disponível para lidar com a situação;
    3. Seu nível de cansaço/estresse está alto, porém você consegue compartilhar com pares/amigos próximos, tornando a situação ainda tolerável;
    4. Seu nível de cansaço estresse está controlado;
    5. Há clareza de que é um processo momentâneo, passageiro e logo tudo retornará ao normal;
    6. Não há clareza ou certeza de nada, e esta indecisão sobre os próximos passos está te atormentando;

  2. A carga de tempo e/ou esforço está menor do que antes:
    1.   Atualmente consegue ter tempo disponível – que não tinha antes – para aproveitar com seus outros papéis/esferas da sua vida (retomar um hobbie, cuidar da casa, acompanhar o desenvolvimento das crianças ou das plantas/pets mais de perto…);
    2.   Esse tempo em que não está trabalhando está gerando uma angústia, um vazio irritante, pois percebeu que não há o que por no lugar – por muito tempo seu papel profissional asfixiou outros papéis/esferas da sua vida e agora a “ficha caiu” fazendo barulho;
    3. Por conta da (suposta) falta de tempo, você não cultivava os outros papéis/relações da sua vida com o mesmo afinco, agora está tendo dificuldade de se aproximar e manter relações saudáveis, pois está evidente a falta de sintonia;
    4.   Com a redução do trabalho veio junto a redução do salário, isso implica em uma série de cortes, modificações/adaptações em sua realidade. Sem contar o estresse e a ansiedade de não saber quanto tempo essa situação perdurará e o que pode acontecer mais para frente;

  3.  Sua carga de trabalho foi reduzida a zero:
    1. Isso implica em uma série de cortes, modificações/adaptações em sua realidade. Sem contar a angústia e o medo de não saber quanto tempo essa situação perdurará e o que vai fazer para prover o básico necessário para subsistência.
    2.   Você passou a valorizar mais o que tinha, e percebeu que reclamava à toa;
    3. Culpa-se por não ter investido mais tempo e esforços em atualizações técnicas ou de soft skills para poder estar mais preparado/a para recolocação.
    4.   Apesar de ter tranquilidade quanto ao desenvolvimento de suas habilidades técnicas e pessoais, o cenário de retração dos mercados nacional e internacional te deixa inseguro ou até mesmo em pânico;
    5.   Tem confiança no seu preparo técnico e pessoal, e – apesar da retração do mercado – tem esperança de que tudo dará certo, que conseguirá se virar até aparecer algo.

  4. Suas tarefas/funções foram alteradas:
    1. Essa nova configuração do seu trabalho está te deixando desmotivado, não se identifica, não vê valor e/ou sente-se entediado, talvez um pouco desvalorizado;
    2.   Você está vivenciando novos aprendizados, pois você está se envolvendo com novas coisas, processos e pessoas que antes não era possível ocorrer;
    3.   A situação atual está te dando motivação e despertando novos interesses, está se surpreendendo com as possibilidades dessa nova forma/modelo de atuação.

  5. Suas tarefas/funções não foram alteradas:
    1. Você está feliz por não ter tido modificação no seu escopo de trabalho, sente-se satisfeito com o que faz, pois tem o domínio de tudo e não precisa despender tempo em aprender nada de novo.
    2.   Você está feliz por não ter tido modificação no seu escopo de trabalho, pois agora poderá aproveitar o tempo livre (seja da falta de trajeto para o trabalho ou do trajeto mais rápido pela melhoria do tráfego) para aprofundar seus conhecimentos na sua área, descobrir novos estudos, técnicas e ferramentas que irão facilitar/melhorar sua rotina ou seus processos.

Anotou tudo?

Então retorne e leia somente as opções que escolheu, atentamente. Reflita sobre cada uma delas e quais emoções e pensamentos elas te geram.

Ao ter em mãos o seu trabalho devidamente dissecado entre condições e consequências, e já tendo feito as considerações sobre elas, coloco mais uma estrutura para ajudar em sua reflexão e finalizar sua autópsia: provocações!

  1.   Se a autópsia que se apresenta à sua frente é confortável e aparentemente saudável. Responda: Será que é mesmo? Ela te traz satisfação real, no sentido de realização pessoal, fortalece seu propósito, te dá um sentido? Ou ela te garante uma tranquilidade, uma comodidade que ainda (e não se sabe até quando) permanece confortável? Ela realmente te completa e te realiza como pessoa ou profissional ou está te deixando estagnado num tempo e espaço que podem estar em mutação sem que você tenha se dado conta?
  2. Se a autópsia que se apresenta à sua frente é estressante ou irritante por não ser o que você queria estar fazendo, ou do jeito que devia ser. Será que é o momento de desesperar? É momento de pensar em desistir ou pôr tudo a perder? Ou é o momento de compreender que esta é uma situação temporária, que a garantida da sua subsistência nesse momento incerto é o que você precisa agora, pois isso não significa abrir mão dos seus sonhos, interesses ou aspiração. Pelo contrário, pode ser o momento perfeito para planejar calmamente os passos que você dará em direção ao que você deseja e merece. Substitua o estresse e descontentamento por confiança em sua estratégia e trace um plano detalhado sobre o que você precisa fazer para – em curto, médio e longo prazo – ir construindo seu novo percurso profissional em direção ao que você realmente deseja.
  3. Se sua autópsia revelou um conjunto desesperador de elementos, respire fundo. Não há condições que não possam ser modificadas muito menos consequências que não possam ser transformadas em causas para novas ações. O que isso significa? Que é hora de parar de lamentar ou culpar, que é hora de espantar pensamentos negativos da sua mente, pois eles te impedem de ver soluções e usar sua potência criativa para desenvolver alternativas e construir nossas possibilidades. É hora de você entender suas reais condições, colocar todas as suas qualidades e competências sobre a mesa, e pensar em possibilidades de sobrevivência a curto prazo. Você tem inúmeros talentos, um serviço que não atenda seus padrões, mas que supre sua subsistência ou da sua família de forma momentânea não será – em hipótese alguma – um ônus no seu currículo. Pelo contrário, mostra capacidade de adaptação e criatividade para lidar com situações de crise. Uma vez conquistada essa subsistência inicial, você pode se concentrar na provocação anterior.

 

Diante dessa autópsia, o que você fará com seu trabalho é uma decisão sua. Porém, lembre-se: inúmeras pessoas ao redor do mundo lutaram para que você tivesse o direito a um trabalho minimamente digno e respeitoso. Antes de 1900, pensar em trabalhar o suficiente para ter uma vida pessoal paralela era utopia de lunáticos anarquistas. Até bem pouco tempo atrás, trabalhar com o que se ama ou por um propósito era coisa de quem não precisava “ganhar a vida”, ou garantia de que iria “morrer de fome”. Porém, hoje – mesmo que com muito esforço – é possibilidade de muitos, incluindo eu e você, dedicar-se a trabalhos que realmente sejam desafiadores, interessantes e que nos tragam satisfação pessoal.

Além disso, a ciência já comprovou que o trabalho conectado a um propósito claro, compatível com nossos valores pessoais e que nos gere satisfação (prazer advindo da realização do que se espera, do que se deseja), traz muito mais “felicidade” (conceito de Bem-Estar de Martin Seligman) do que um trabalho bem remunerado.

Então, o que você fará agora?

Aproveite sua autópsia neste feriado: reflita sobre seu trabalho, o quanto ele te conecta aos seus valores e propósito nesta vida, como ele te satisfaz sem anular as outras esferas importantes da sua vida, que também te compõem como ser humano, e principalmente, como ele pode te ajudar a se desenvolver como um ser humano melhor para si, para sua família e para a sociedade.

Se é para investir em algo neste momento, invista em você!

ESCRITO POR

Alessandra Ramos

É Analista Sênior do Grupo Bridge, onde desenvolve conteúdos e ações educativas que buscam despertar o ilimitado potencial das pessoas. Se não está aprontando por aqui, certamente está cuidando da família ou bagunçando com as crianças.

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